XXVII Simpósio Nacional de História

22 a 26 de julho de 2013

UFRNNatal - RN

 

Simpósio Temático

Famílias e seus Enredos: cenários de solidariedades e conflitos no Brasil do século XVI ao XIX

Inscrições até 31 de março de 2013

Coordenadores: 
Ana Silvia Volpi Scott (Unisinos e Secretária da Abep)
Carlos de Almeida Prado Bacellar (FFLCH/USP)

 

Resumo: Este Simpósio Temático pretende aprofundar as reflexões sobre as estratégias familiares e as redes sociais inscritas no universo complexo da sociedade luso-brasileira, e que vêm atraindo cada vez mais a atenção dos historiadores da família, através da exploração de fontes de caráter variado, de cunho quantitativo ou qualitativo. Portanto, serão preferencialmente acolhidas comunicações que apresentem resultados de pesquisa nesta perspectiva e/ou que discutam questões de caráter teórico-metodológico no âmbito da problemática da família e das redes sociais, que é o fio condutor da proposta. É intenção deste simpósio estimular e valorizar trabalhos que investiguem o rico e distinto universo familiar em contextos ainda não contemplados pela historiografia, oferecendo contribuições para se analisar a complexidade dos sistemas familiares vigentes no passado brasileiro.

 

Justificativa: Nas últimas décadas o estudo da família tem atraído a atenção de especialistas de diferentes áreas. No campo da história as análises sobre esta instituição têm crescido de maneira espetacular, contribuindo de forma decisiva para o debate. Neste contexto de intensas discussões sobre a temática da família, o Simpósio Nacional da ANPUH têm sido um fórum privilegiado e, nos últimos eventos, já se tornou uma tradição a proposição de um Simpósio sobre este tema. Neste contexto de crescimento do estudo da família entre os historiadores o impulso inicial veio dos trabalhos produzidos no âmbito de Demografia Histórica, sobretudo a partir das décadas de 1980 e 1990. Contudo, os estudos sobre a família se alargaram de tal maneira, principalmente por conta do diálogo com as Ciências Sociais, que as recentes pesquisas não se limitam apenas ao estudo do aspecto demográfico, embora este continue a fornecer elementos importantes para a compreensão da organização e das dinâmicas familiares. Essa abertura para outras áreas se justifica pela própria complexidade do tema, pois a compreensão dos sistemas familiares do passado não pode restringir-se ao estudo das variáveis demográficas, até por conta das múltiplas situações de vida que são contempladas pela família, como instituição básica de praticamente todas as sociedades. Assim a vertente dos estudos básicos do comportamento demográfico, já nos anos de 1980, foi sendo gradativamente extrapolada para a questão da economia doméstica, dos sentimentos, como mostrou Michel Anderson há quase 30 anos. A ampliação desse universo, para além do núcleo constituído por pais e filhos e/ou co-residentes, englobando a parentela, ganhou cada vez mais atenção dos estudiosos, a partir do diálogo interdisciplinar com a Antropologia e Sociologia. Fundamental também foi a contribuição teórico-metodológica advinda da micro-história e da proposta da redução da escala de abordagem, que procura fazer sobressair o comportamento social dos atores históricos, acreditando que a observação possibilitada através dos jogos de escala poderá revelar dados previamente não evidenciados. Sobretudo a partir das reflexões de Giovanni Levi e de outros historiadores italianos, tal perspectiva permitiu uma abertura a discussões relativas às estratégias familiares e às redes de parentesco para as sociedades do Antigo Regime. Levi afirma que toda a ação social é vista como o resultado de uma constante negociação, manipulação, escolhas, decisões do indivíduo, diante de uma realidade normativa que, entretanto, oferece muitas possibilidades de interpretações e liberdades pessoais. Se estivermos de acordo com esta afirmação, uma questão de relevo para o historiador passa a ser a análise das margens de manobra que são utilizadas pelos indivíduos (e/ou famílias) para lidar com os sistemas normativos existentes, aproveitando-se de suas brechas e/ou contradições. Portanto, a questão das redes sociais adquire um papel fundamental quando se opta pela redução da escala de abordagem. Entretanto a temática das redes sociais não é nova e o estudo das redes de relações sociais já tem alguma tradição no âmbito das ciências sociais e políticas. Os historiadores, por sua vez, passaram também a incorporar esse conceito para analisar questões tão variadas como o estudo das elites ou das migrações. Considerando a importância da noção de estratégias familiares e de redes sociais, temos um universo rico e complexo a ser explorado, que pode se valer tanto de fontes produzidas por instituições laicas quanto eclesiásticas. Desta maneira, reunimos elementos fundamentais para o estudo das redes, constituídas tanto através dos vínculos de consangüinidade e/ou aliança, quanto a partir de relações de outra natureza. Embora o discurso dominante identifique na família espaços de harmonia, proteção, solidariedade e cumplicidade, os conflitos também fazem parte desse universo, e os historiadores também tem que refletir sobre essas contradições entre o discurso e a prática

 

Bibliografia

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