Eni Samara

Eni de Mesquita Samara, colega e amiga muito querida, deixou saudades. Enfrentou sua doença com coragem e determinação, transmitindo a todos à sua volta incomensurável vontade de viver. Partiu muito cedo, mas sua lembrança permanece forte entre seus amigos, colegas e alunos. Profissional muito respeitada, sua competência e dedicação ficaram patentes no desempenho das múltiplas atividades de pesquisa e ensino que desenvolveu no plano nacional e internacional.

Professora Titular do Departamento de História da USP na disciplina História do Brasil Colonial foi, por muitos anos, Diretora do Centro de Estudos de Demografia Histórica da América Latina (Cedhal), ao qual imprimiu grande dinamismo. Ali organizou um arquivo de fontes primárias relacionadas especialmente a temas da história da população, assim como promoveu a publicação de boletins, revistas e coleções de textos com os resultados de eventos do Centro e de vários projetos sucessivos que comandou.

Seu comprometimento institucional a levou a aceitar muitos cargos administrativos, tais como a Coordenação de dois Programas de Pós-Graduação, a Vice-Direção da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e a Direção do Museu Paulista. Não se pode esquecer, ainda, sua marcante atuação como Presidente da Anpuh (Associação Nacional de História).

Considerada por seus pares como pioneira na área de demografia histórica brasileira (sua dissertação de mestrado foi defendida em 1975), dedicou-se ao estudo da família e das relações de gênero desde a década de 1970. Suas pesquisas sempre revelaram inclinação e talento notável para lidar com fontes primárias, manuscritas e impressas, bem como aquelas passíveis de quantificação. Suas publicações nesse campo são relevantes, desde a coletânea As ideias e os números do gênero: Argentina, Brasil e Chile no século XIX, de 1997, até livros de divulgação como, por exemplo, Família, mulheres e povoamento: São Paulo, século XVII, de 2003. Conferencista e professora convidada em diversas universidades americanas, europeias e asiáticas, publicou muitos capítulos de livros no exterior, dentre os quais se destaca "Historia de las mujeres en España y América Latina III", de 2006.

Também teve notória habilidade para gerenciar amplos projetos de pesquisa, envolvendo pesquisadores de diversos centros, assim como alunos e estagiários, conseguindo recursos, organizando eventos, coordenando simpósios e divulgando anais. Formou inúmeros pesquisadores nas áreas de sua especialidade, muitos dos quais atuam em universidades estaduais e federais em várias regiões do país.

Em face dessa trajetória tão intensa, rica e diversificada, não podemos deixar de prestar a ela nossa homenagem e externar nossa admiração pela vida plena de realizações memoráveis. Eni deixa uma lacuna na historiografia e na universidade brasileira. Só nos consola o orgulho de termos tido uma colega que tanto colaborou para o bom nível da vida acadêmica e para os avanços da historiografia brasileira.

 

Maria Helena Capelato, Horácio Gutierrez, Maria Lígia Prado 
Universidade de São Paulo

Agosto 2011

 

Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882011000200002

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